Eu já havia
acordado seis horas da manhã, feito o seu almoço, deixei dentro da geladeira em
um prato raso, assim como você gosta, envolto em um papel alumínio para não
estragar, esperando apenas que você aquecesse no micro-ondas.
Naquela manhã chuvosa
vesti minha roupa mais bonita, uma camisa branca, uma saia longa preta um
paletó da mesma cor. Coloquei todos os meus documentos dentro da bolsa que
Camila me emprestara para a ocasião e dirigi até a empresa. Havia algumas
pessoas na minha frente e eu sabia que essas entrevistas costumavam levar certo
tempo. Eu só sairia dali por volta das duas da tarde. Todo aquele processo
seletivo era cansativo, mas necessário.
Eu estava
sentada, minhas concorrentes para aquela vaga, algumas estavam visivelmente
mais nervosas que eu, outras aparentavam uma falsa confiança, tenho certeza que
para tentar afugentar as mais inseguras. Eu estava nesse segundo grupo, mal
conseguia respirar, meu coração estava acelerado, piscava freneticamente e minhas
mãos suavam e estavam extremamente geladas. Minhas mãos. Fixei meu olhar nelas
por um instante e me lembrei da forma que você as toca, o carinho que você faz
com seu polegar enquanto nossos outros dedos permanecem entrelaçados. Eu não estava
mais naquela sala de espera, aguardando a minha vez para ser entrevistada, eu
estava com você, era assim que eu me sentia. Seus olhos, sua paciência comigo,
com minhas neuras, meu ciúme, minha necessidade dramática de atenção, você
permanecia comigo.
Com você
sempre me senti limpa, essa é a verdade. Lembro de nossa primeira vez, já namorávamos
havia alguns meses, mas jamais tínhamos nos tocado demais, você sabia e
entendia as minhas restrições, meus medos, minhas inseguranças. Eu nunca fui o
tipo de garota que avançava muitas bases, mesmo já tendo outros
relacionamentos, eu não tinha necessidades físicas, todavia necessidades
sentimentais, as quais você supria completamente com seu jeito doce de me
tratar.
Já era quase
meio dia quando recebi sua mensagem de bom dia, me chamando de sua pequena e me
desejando boa sorte. Foi como se eu finalmente tivesse conseguido inspirar
oxigênio em meus pulmões. Meia hora depois recebi outra, dessa vez informando
que o purê de batata estava uma delícia, que o bife estava do jeito exato que
sua mãe fazia, como era impecável as minhas mãos na cozinha e no final disse
que me amava e tornou me chamar de sua pequena.
No dia que
briguei com meus pais eu te mandei uma mensagem contando que meu pai me mandou
parar de querer viver um conto de fadas. Você imediatamente foi ao banheiro do
seu trabalho para poder falar comigo, com uma ligação péssima a única coisa que
eu ouvi foi você me chamando de princesa. A ligação caiu em seguida e você não
conseguiu me retornar, mas aquelas palavras me fizeram ter força de lutar pelos
meus objetivos. Era como eu me sentia sentada naquela cadeira. Eu estava
pronta, pois eu sabia que onde fosse a batalha que eu fosse travar, você
estaria comigo sempre.
A
recepcionista, então, chamou o meu nome...
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